E ela estava feliz. Só que antes havia passado por algumas provações; decepção, desemprego, término, maternidade, falta de amor próprio e medo de enfrentar tudo aquilo sozinha.
Aos poucos tudo foi encontrando seu lugar. O primeiro passo foi perceber que não era vítima de nada, o que ela sempre dizia agora fazia sentido: "Toda escolha exige uma renúncia". E foi assim que tudo foi se ajeitando. Aceitou que só havia se decepcionado porque idealizou demais, o desemprego fora uma opção, o término era inevitável e a maternidade também havia sido uma escolha. Enfrentar aquilo sozinha era o que a assustava, arcar com o peso da responsabilidade que até um momento atrás era dividida, com o peso da cobrança da sociedade e com o medo de falhar; falhar como mãe, falhar como mulher, falhar como ser humano.
Após um K de lágrimas lavando sua face escolheu seguir em frente e renunciar seu medo. Decidiu enfrentar o que viesse e se não conseguisse, pediria ajuda (nem que fosse divina, alguma haveria de surgir). Enfrentou. Enfrentou pessoas querendo decidir sobre seu parto, sobre seus relacionamentos, suas decisões, enfim, sua vida. Passou por uma série de desaprovações de seres que ela nem conhecia. Passou de cabeça erguida, com aquele belo sorriso indiferente àquilo que não consentia. Não foi fácil, ela também não esperava que fosse. Mas nessa dificuldade os dias eram ensolarados pelos sorrisos de sua filha, amigos reapareceram e a distância do que lhe fazia insegura trouxe o amor próprio de volta. E ela estava feliz. E isso bastava.

Série: Dicionário

Série: Dicionário
Serendipismo: s.m.
ato de encontrar respostas, coisas agradáveis, fazer descobertas por acidente ou sagacidade; se refere às descobertas afortunadas feitas, aparentemente, por acaso.

Meu dicionário: te conhecer.

Despertar...

Despertar...
E hoje conversando pelo Talk com o bem quis escrever algo mais bonitinho (pra surpreendê-lo e também alegrá-lo um pouco, já que sou chata pra *aralho), acabei por me surpreender.
Percebi que gosto de escrever e que há tempos não o fazia. Lembrei dos meus sonhos remotos de ser uma redatora (que para o bem geral da nação não foi concretizado) e das minhas tentativas de ter um blog lido por alguém (Obrigada amigos, vocês com esta paciência invejável me incentivaram por um bom tempo e ainda conseguiram ler minhas linhas desconexas, elogiar e arrancar bobos sorrisos).
Então caí aqui; vi esse blog, morto. Um layout miserável, imagens copiadas e frases soltas, algumas sem sentido algum. Olhei para mim; camiseta do Mickey, short jeans e descabelada, digitando uma resenha acompanhada de uma xícara de café que logo foi substituída por uma latinha de Budweiser. E o que veio no pensamento: "O que me tornei?".
Em uma fração de segundos repensei minhas atitudes, decisões e renúncias tomadas, alguns sorrisos, algumas lágrimas, baixa autoestima, carência desmedida, o desleixo com a aparência, o desleixo com a casa, o desleixo com a vida em geral. E então... Despertei. Acordei e percebi que posso ser muito melhor que isso, a noite está linda, mas hoje, HOJE, eu estou mais!

E nem tudo é como se espera...

E nem tudo é como se espera...
Vivemos numa atualidade onde é a era do descartável. Se o celular está com um defeito, joga fora e se compra outro. Se na faculdade não está como se espera, trancamos o curso e que venha outro vestibular. Se o emprego não está agradando, logo montamos um currículo e distribuímos por ai. Nas relações humanas parece que não está muito diferente, o que vejo são discussões terem como sequência um término; término de amizade, de namoro e até de casamento. Até porque é mais fácil colocar um ponto final do que tentar consertar aquilo que não vai de acordo com os planos. E aí vem a grande pergunta, somos onipotentes para predizer como algo vai encaminhar? Já diziam que tentar prever serve só para se enganar... ainda acredito nessa teoria. Poucas são as pessoas que tentam buscar uma solução para o problema que enfrentam. Não sei se a grande massa prefere o fim por medo ou fraqueza. 
É certo que o ser humano é inconstante. Somos passionais, irracionais e imprevisíveis. Atitudes e reações esperadas nem sempre se concretizam e a expectativa acumulada gera decepção, frustração. Segundo o Dicionário Aurélio, decepção significa "malogro de uma esperança; desilusão; desengano". Já frustração significa "enganar a expectativa".
Me pergunto se o grande problema das relações é a tal da expectativa. Porque tanta expectativa? Expectativa na área profissional, acadêmica, pessoal, amorosa... Expectativas e mais expectativas que quando não correspondidas já sabemos no que vai dar...
Daí acabo por acreditar que ter uma vida simples é muito complexo para nós humanos. Criar expectativas é sinônimo de ter mais emoção, viver perigosamente na incerteza e comemorar cada detalhe que corresponde a um ponto de alegria. E alguém uma vez disse algo como que sem a dor não saberíamos reconhecer o que é felicidade, e talvez por isso mesmo sem saber procuramos por alguma forma de sofrer um pouco.

Um ano e seis meses...

Um ano e seis meses...

Você já faz três dias. Três dias de um ano e seis meses. Eu não quis te esquecer e já desisti dessa ideia. Ainda tenho aquele estomago enjoado dos primeiros meses. E acho que sempre que eu ver uma foto nossa, ver aquele filme que você me deu e é seu preferido, ouvir uma música do DG vou sentir a garganta seca, uma crise de ansiedade, as mãos suando frio.

Eu nunca te preferi por causa dos seus gostos cinematográficos, músicas, expressões corporais, piadas sem graças, diálogos inteligentes e abraços confortantes. Eu nunca te preferi por causa das suas histórias repetidas ou de sua determinação enquanto pessoa.

Eu nunca te preferi como uma menina que te prefere porque você é um personagem muito complexo para ser preferível. Tudo isso era só uma boa música e uma boa fotografia e uma boa direção e um bom roteiro. Mas eu amava o negativo preto e branco e de ponta-cabeça. A fagulha de ideia da sua existência. O seu nariz aristocrático e a sua boca corada mesmo quando você empalidecia no começo da noite.

Eu amava você dormindo, de lado, me empurrando durante a noite contra a parede e ocupando a cama inteira, com seus cabelos espalhados no travesseiro, a respiração ofegante quando você não conseguia dormir por estar incomodado, sua irritação por eu dormir mexendo trilhões de vezes durante a noite. Eu amava você inventando apelidos para mim, ou as vezes me chamando de coisas sem sentido e achando isso bonitinho. Eu amava quando te fazia cafuné e você ficava quietinho para eu não parar. Amava o medo que você tinha de eu te dar mordidas fortes e eu demorar perceber.

Amava sem você fazer nada, só respirando pesado, só lutando com seu peito angustiado, só perdido, só tentando ficar mesmo não sabendo como.

Adaptado: Tati Bernardi